
Durante muito tempo, falar em vinho brasileiro significava olhar quase automaticamente para o Sul do país. A Serra Gaúcha construiu uma história fundamental para a nossa vitivinicultura e continua sendo uma das grandes referências nacionais.
Mas o mapa do vinho brasileiro está mudando.
Novas regiões, técnicas de cultivo e produtores estão mostrando que o Brasil pode elaborar vinhos com características muito diferentes entre si. E talvez seja justamente essa diversidade que esteja ajudando a construir uma nova identidade para o vinho nacional.
Rio Grande do Sul continua tendo enorme importância, mas hoje encontramos projetos interessantes em Minas Gerais, São Paulo, Bahia e outras regiões.
Essa expansão não acontece apenas geograficamente. Ela também representa uma descoberta de novos terroirs — combinação de solo, clima, altitude e intervenção humana que influencia as características de cada vinho.
Dados da Embrapa ajudam a dimensionar essa transformação. Em 2024, São Paulo registrou crescimento de 9,8% na área cultivada com videiras. Segundo os pesquisadores, parte dessa expansão está relacionada a novos empreendimentos em polos não tradicionais, principalmente projetos de vinhos de inverno ligados também ao enoturismo. Infoteca Embrapa
Uma das grandes responsáveis por essa mudança é a técnica conhecida como dupla poda.
Em vez de realizar a colheita no verão, período tradicional da vindima, o ciclo da videira é alterado para que as uvas amadureçam e sejam colhidas durante o inverno.
Isso permite aproveitar condições diferentes de temperatura, insolação e menor ocorrência de chuvas em determinadas regiões.
A técnica ganhou força inicialmente no Sul de Minas e posteriormente avançou para outras áreas. A própria Embrapa relaciona a expansão da viticultura mineira à consolidação dos chamados vinhos de inverno. Infoteca Embrapa
E essa transformação está acontecendo bem perto de Ribeirão Preto.
A Serra da Mantiqueira e municípios paulistas como Espírito Santo do Pinhal vêm aparecendo nesse novo cenário, com vinícolas explorando altitude, diferentes variedades de uvas e técnicas como a dupla poda.
Já existem, por exemplo, projetos paulistas trabalhando com Syrah, Cabernet Franc e outras variedades, mostrando que São Paulo começa a desenvolver uma personalidade própria dentro da vitivinicultura brasileira. Terroir
Uma das coisas mais interessantes desse movimento é que não precisamos viajar até uma vinícola para começar a conhecer essa diversidade.
Em Ribeirão Preto, o Terroir Vinhos nasceu justamente com uma proposta de valorizar a vitivinicultura brasileira. A curadoria é feita por sommelière e reúne produtores de diferentes regiões do país, aproximando o consumidor de rótulos que muitas vezes ainda são pouco conhecidos do grande público. Terroir
O catálogo ajuda, inclusive, a enxergar na prática essa transformação do mapa vitivinícola.
Há vinhos da tradicional Serra Gaúcha, mas também rótulos produzidos em Espírito Santo do Pinhal, na vertente paulista da Serra da Mantiqueira, e no Sul de Minas. Um dos conjuntos oferecidos pela casa, por exemplo, coloca lado a lado um Syrah paulista de Espírito Santo do Pinhal e um Chardonnay produzido em Caldas, Minas Gerais. Terroir
É quase uma viagem pelo novo mapa do vinho brasileiro sem sair da mesa.
Talvez essa seja a pergunta mais interessante.
Precisamos encontrar um único estilo capaz de representar o Brasil ou justamente assumir que nossa identidade está na diversidade?
Somos um país continental. Temos diferentes altitudes, solos, regimes de chuva e temperaturas. É natural que nossos vinhos expressem essas diferenças.
Talvez o futuro do vinho brasileiro não esteja em tentar reproduzir Bordeaux, Toscana, Mendoza ou qualquer outra região famosa do mundo.
Pode estar justamente em descobrir o que São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e tantas outras regiões conseguem colocar dentro de uma garrafa que só poderia ter sido produzida aqui.
E isso torna o momento atual especialmente interessante para quem gosta de vinho.
Porque estamos acompanhando essa identidade brasileira ser construída, uma taça de cada vez.
Fontes: Embrapa Uva e Vinho – Panorama da Vitivinicultura Brasileira em 2024; Terroir Vinhos.
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