
A redução da taxa Selic para 13,75% ao ano pode ter parecido uma boa notícia para quem acompanha apenas os números do mercado financeiro. E, de certa forma, é. O Banco Central iniciou um movimento de flexibilização dos juros e reconheceu sinais de desaceleração da atividade econômica. Mas existe uma enorme distância entre uma queda de 0,25 ponto percentual na taxa básica e o momento em que esse alívio efetivamente chega ao caixa de uma empresa ou ao bolso de uma família.
Em uma cidade como Ribeirão Preto, essa diferença merece atenção especial. Nossa economia é fortemente movimentada por comércio, prestação de serviços, pequenas empresas, profissionais liberais e empreendedores. São justamente atividades extremamente sensíveis ao custo do crédito e à disposição das famílias para consumir.
Os números mais recentes do mercado de trabalho ajudam a compreender esse cenário. Ribeirão Preto terminou agosto com saldo negativo de 65 empregos formais. Isoladamente, o número não representa uma crise e precisa ser colocado em perspectiva: no acumulado de 12 meses, o estoque de empregos formais da cidade ainda apresenta crescimento de 1,23%.
O que chama atenção está dentro desse resultado. Enquanto o comércio terminou o mês com saldo positivo de 164 vagas, o setor de serviços perdeu 271 postos. E estamos falando justamente do setor que concentra a maior quantidade de empregos formais do município.
Portanto, não é hora de criar uma narrativa de desastre, mas também seria equivocado ignorar os sinais. A economia continua funcionando, empresas continuam contratando e Ribeirão permanece como um importante centro econômico do interior paulista. Porém, dinheiro caro inevitavelmente muda decisões.
Quando ouvimos falar que a Selic está em 13,75%, parece uma discussão distante da realidade de quem administra uma loja, restaurante, clínica, escritório ou pequena empresa em Ribeirão Preto.
Não é.
A taxa básica influencia todo o sistema de crédito. Quando os juros permanecem elevados, financiar equipamentos fica mais caro, antecipar recebíveis pesa mais, utilizar capital de giro exige planejamento e assumir uma dívida para expandir um negócio se torna uma decisão muito mais delicada.
Do outro lado do balcão está o consumidor.
Uma família comprometida com parcelas mais caras tende a reduzir gastos que considera adiáveis. Troca menos de carro, posterga uma reforma, controla as compras, diminui determinados serviços e pensa duas vezes antes de assumir uma nova prestação.
E quando milhares de famílias fazem isso ao mesmo tempo, o empresário percebe.
Esse talvez seja o principal ponto para empresários neste momento.
A Selic caiu. Isso não significa que os juros estejam baixos.
Existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Para quem administra uma empresa, tomar decisões acreditando que o crédito barato está prestes a voltar pode ser perigoso. O próprio Banco Central tem sinalizado cautela sobre os próximos passos, enquanto acompanha inflação e atividade econômica.
Por isso, talvez a palavra mais importante para os próximos meses seja eficiência.
Antes de financiar uma expansão, é preciso entender o retorno. Antes de assumir uma nova parcela, avaliar o fluxo de caixa. Antes de contratar, analisar produtividade e demanda. Antes de oferecer grandes descontos para aumentar vendas, calcular se a margem suporta a estratégia.
Pode parecer básico, mas períodos de crédito caro costumam revelar justamente os problemas que ficam escondidos quando existe dinheiro abundante.
Existe outro lado dessa história que não pode ser ignorado.
Ribeirão Preto possui uma economia diversificada, forte presença empresarial e conexão direta com uma das regiões mais importantes do agronegócio brasileiro. Comércio, saúde, serviços, tecnologia, construção, educação e agroindústria ajudam a distribuir a atividade econômica entre diferentes segmentos.
Nesta semana, inclusive, Ribeirão recebe executivos e especialistas para discutir tecnologia, eficiência, investimentos e o futuro das operações no setor bioenergético, mais uma demonstração da posição estratégica da cidade dentro da economia regional. Visão Agro
Essa diversidade funciona como uma espécie de amortecedor econômico. Quando determinado segmento perde força, outro pode avançar.
Mas isso não torna nenhuma empresa imune a erros de gestão.
Os próximos meses serão especialmente interessantes para observar.
Se a inflação permitir novos cortes da Selic, o crédito poderá gradualmente ficar menos restritivo. Para empresas financeiramente organizadas, isso pode significar oportunidade para voltar a investir, modernizar operações ou acelerar projetos que ficaram na gaveta durante o período de juros mais altos.
Quem chegar a esse momento excessivamente endividado poderá assistir às oportunidades de longe.
Por isso, o empresário de Ribeirão talvez precise fazer uma pergunta diferente.
Em vez de perguntar apenas “quando os juros vão cair?”, deveria perguntar:
“Minha empresa estará preparada quando eles caírem?”
Porque ciclos econômicos passam. Empresas preparadas são aquelas que conseguem atravessá los.
Marina Valença é colunista de Economia e Negócios do Ribeirão Notícia e escreve sobre mercado, empresas, empreendedorismo, consumo, investimentos e oportunidades.
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