
Durante muito tempo, chamar alguém de nerd não era exatamente um elogio. Games eram vistos como coisa de criança, quadrinhos como passatempo adolescente, cosplay parecia algo restrito a convenções e passar horas discutindo universos fictícios poderia render algumas piadas.
Acontece que o mundo mudou.
E talvez Ribeirão Preto esteja começando a mostrar, de maneira bastante clara, que o nerd não apenas saiu do quarto. Ele virou consumidor, público de eventos, cliente de shopping, colecionador e parte relevante da indústria do entretenimento.
Quem ainda imagina a cultura geek como um pequeno nicho talvez precise atualizar o sistema.
Um exemplo está acontecendo neste momento em Ribeirão Preto. Até 12 de outubro, uma arena gratuita no Novo Shopping permite ao público experimentar PlayStation 5 e títulos como Street Fighter e Gran Turismo 7. No sábado (10), personagens de Street Fighter também ganham espaço em uma ação com cosplayers.
Parece apenas uma programação de Dia das Crianças.
Não é.
Street Fighter nasceu nos fliperamas, atravessou diferentes gerações de consoles e hoje consegue colocar pais e filhos diante da mesma tela. É justamente aí que existe uma transformação interessante.
O adolescente que passou tardes tentando executar um Hadouken perfeito envelheceu. Hoje pode ter 35, 40 ou 45 anos, emprego, filhos e poder de compra.
E continua jogando.
A indústria percebeu isso há bastante tempo.
Talvez esse seja um dos grandes motivos pelos quais a cultura geek se tornou tão poderosa comercialmente.
Uma geração inteira cresceu assistindo a desenhos, jogando videogame, colecionando cards, lendo mangás e quadrinhos e acompanhando franquias de fantasia e ficção científica. Ao entrar na vida adulta, essas pessoas não necessariamente abandonaram seus interesses.
O resultado está por toda parte.
Colecionáveis ganharam versões destinadas ao público adulto. Camisetas de personagens aparecem em diferentes faixas etárias. Games deixaram de ser encarados apenas como brinquedos. Adaptações de videogames ocupam cinemas e plataformas de streaming. Competiçōes eletrônicas conquistaram grandes públicos. Eventos de anime e cosplay movimentam multidões.
O que mudou não foi apenas o tamanho da indústria.
Mudou a maneira como a sociedade enxerga quem consome tudo isso.
Os sinais aparecem na própria cidade. No início deste mês, Ribeirão Preto recebeu a primeira edição local do Bailão Nerd, festa voltada ao público nerd e otaku que misturou anime, cosplay, K pop, rock, música japonesa e outras referências desse universo. Meaple
Agora temos uma arena de games ocupando um shopping da cidade. Ribeirão também possui comércio especializado em quadrinhos, colecionáveis e produtos relacionados à cultura geek, como a PoPKai Mundo Geek, no Centro.
Isoladamente, cada exemplo poderia parecer pequeno. Quando colocamos tudo junto, entretanto, surge uma mudança de comportamento.
Existe público.
E onde existe público, surgem eventos, produtos, experiências e negócios.
Há ainda uma coincidência interessante no calendário. Entre quinta (9) e domingo (12), São Paulo recebe a Brasil Game Show 2026, um dos principais eventos de games do país. A programação nacional de outubro também reúne encontros relacionados a anime, cosplay, RPG, quadrinhos e cultura pop em diferentes cidades brasileiras. MangaNight
Isso ajuda a explicar por que falar de games hoje significa falar também de economia criativa, tecnologia, publicidade e comportamento.
O videogame deixou de disputar somente a atenção das crianças.
Ele disputa o tempo livre dos adultos com cinema, streaming, redes sociais, shows e outras formas de entretenimento.
E isso muda completamente o jogo.
Ribeirão Preto possui características interessantes para explorar esse mercado. É uma cidade regionalmente importante, possui universidades, shopping centers, cinemas e um público consumidor que não depende exclusivamente da capital para entretenimento.
Por isso, existe uma pergunta que vale acompanhar nos próximos anos: Ribeirão conseguirá transformar esse público em uma cena geek própria e permanente?
Porque uma coisa é receber uma ação pontual de videogame. Outra é consolidar calendário recorrente de eventos, campeonatos, encontros de RPG, cosplay, quadrinhos, colecionismo e produção independente.
O público parece existir.
Talvez esteja faltando conectar melhor essas pessoas.
Existe certa ironia nisso tudo.
Durante décadas, a cultura nerd foi associada a pessoas que supostamente não se encaixavam no entretenimento considerado popular.
Agora o entretenimento popular está cheio das coisas que essas pessoas sempre amaram.
Super heróis dominam grandes produções. Videogames viram filmes e séries. Anime conquistou novos públicos. Cosplay aparece em grandes eventos. Colecionáveis movimentam adultos. E personagens criados décadas atrás continuam comercialmente relevantes para novas gerações.
Talvez os nerds nunca tenham precisado sair do seu universo.
Foi o restante do mundo que acabou entrando nele.
E Ribeirão Preto parece estar passando pela mesma porta.
Lucas Valente é colunista de cultura nerd e entretenimento do Ribeirão Notícia. No Checkpoint Nerd, acompanha games, cinema, séries, quadrinhos, tecnologia, colecionismo e os fenômenos que movimentam a cultura geek.
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