
Troncos e galhos de árvores derrubadas por temporais em Ribeirão Preto poderão ganhar uma nova finalidade, deixando de ser tratados apenas como resíduos da limpeza urbana para se transformarem em móveis, bancos de praças, esculturas e produtos artesanais. Essa é a proposta do Projeto de Lei nº 354/2026, apresentado pelo vereador Danilo Scochi (MDB) durante a sessão ordinária da Câmara Municipal desta quarta-feira (14). Batizada de “Madeira que Renasce”, a iniciativa pretende incentivar o reaproveitamento sustentável da madeira recolhida na cidade, promovendo benefícios ambientais e criando possibilidades de geração de trabalho e renda.
A proposta surge em um contexto de preocupação com os impactos dos eventos climáticos extremos sobre a arborização urbana. Em 24 de julho deste ano, um forte vendaval atingiu Ribeirão Preto, provocando a queda de árvores e espalhando grandes quantidades de troncos e galhos por diferentes regiões do município. Além dos transtornos causados à população, situações como essa exigem operações de limpeza, transporte e destinação dos materiais recolhidos. O projeto busca ampliar as alternativas para esse processo, permitindo que a madeira em condições adequadas seja utilizada na produção de novos objetos e estruturas.
A iniciativa está fundamentada no conceito de economia circular, modelo que procura reduzir o desperdício e prolongar a utilização dos recursos naturais. Em vez de considerar toda a madeira proveniente de árvores caídas como material sem utilidade, a proposta incentiva sua avaliação e eventual transformação em produtos que possam beneficiar a própria cidade.
Entre as possibilidades previstas no projeto estão a fabricação de mobiliário urbano, como bancos e estruturas destinadas a espaços públicos, além de móveis, objetos de decoração, esculturas, peças de artesanato e elementos paisagísticos. A intenção é aproveitar as características de cada material, respeitando suas condições de conservação e segurança, para desenvolver produtos com diferentes finalidades.
Segundo o vereador Danilo Scochi, o reaproveitamento pode transformar um problema provocado pelas tempestades em uma oportunidade para o município.
“Uma árvore que cai não precisa ter sua história encerrada ali. Aquela madeira pode ganhar uma nova vida, virar um banco de praça, uma escultura, um móvel ou até gerar oportunidades de trabalho e renda. A ideia é transformar aquilo que seria descartado em algo útil para a nossa cidade. É sustentabilidade na prática”, destaca o parlamentar.
O texto prevê diretrizes para identificação, avaliação, classificação e rastreabilidade da madeira, permitindo distinguir os materiais que podem ser reutilizados daqueles que exigem outros procedimentos. A utilização dependerá de critérios técnicos, especialmente para evitar que troncos comprometidos por deterioração, pragas ou problemas estruturais sejam empregados em produtos que possam oferecer riscos.
Além dos benefícios ambientais, a proposta pretende estimular atividades ligadas à economia criativa, reunindo profissionais que trabalham com madeira e instituições capazes de contribuir para o desenvolvimento de soluções sustentáveis. O projeto incentiva a cooperação entre o poder público, universidades, centros de pesquisa, artistas, marceneiros, artesãos, cooperativas, organizações sociais e empresas interessadas em participar das iniciativas.
Essa articulação poderá favorecer a realização de atividades de capacitação, o desenvolvimento de técnicas de reaproveitamento e a criação de produtos com maior valor agregado. A madeira recolhida após eventos climáticos, por exemplo, poderá ser utilizada em projetos de design, oficinas de marcenaria, trabalhos artísticos e outras atividades produtivas, desde que sejam atendidas as exigências legais e técnicas.
Para Danilo Scochi, Ribeirão Preto possui profissionais e instituições que podem contribuir para transformar a proposta em iniciativas capazes de unir sustentabilidade e desenvolvimento econômico.
“Ribeirão Preto tem profissionais talentosos, artesãos, marceneiros, artistas e instituições de ensino que podem contribuir muito com essa ideia. Por que não aproveitar essa capacidade para transformar a madeira que caiu em novos produtos? Podemos unir sustentabilidade, criatividade e desenvolvimento econômico”, afirma.
A possibilidade de geração de renda, entretanto, dependerá da implementação de projetos concretos, da disponibilidade de materiais adequados e da participação dos setores envolvidos. O texto apresentado estabelece diretrizes de incentivo, mas não cria automaticamente vagas de trabalho, cursos de capacitação ou programas de distribuição de madeira.
Outro ponto importante do Projeto de Lei nº 354/2026 é a preocupação com a transparência e a segurança no aproveitamento dos materiais. A proposta prevê o incentivo à organização de registros sobre a origem, as características e a destinação da madeira recolhida, permitindo maior acompanhamento dos procedimentos e dos resultados alcançados.
A rastreabilidade é considerada relevante para garantir que o reaproveitamento ocorra de maneira organizada e dentro das normas ambientais. O projeto também estabelece a necessidade de diferenciar os materiais que podem ser transformados em novos produtos daqueles que devem receber tratamento ou destinação ambientalmente adequada, incluindo alternativas como trituração e compostagem, conforme as características dos resíduos.
O texto ressalta que a proposta não autoriza a retirada irregular de madeira de áreas públicas ou propriedades particulares. Qualquer aproveitamento deverá respeitar a legislação ambiental, os direitos relacionados à titularidade dos materiais e as condições necessárias para sua utilização segura.
Dessa forma, o objetivo não é estimular o corte ou a retirada indiscriminada de árvores, mas oferecer alternativas sustentáveis para a destinação de materiais provenientes de quedas e outros eventos que já tenham ocorrido.
O projeto não se limita ao reaproveitamento dos troncos e galhos. A iniciativa também estabelece diretrizes para incentivar ações de recuperação e recomposição da arborização urbana, reconhecendo a importância das árvores para a qualidade ambiental e para o equilíbrio dos espaços públicos.
A proposta prevê que as atividades de reutilização da madeira possam ser acompanhadas por ações de educação ambiental, conscientização e valorização das árvores. A intenção é reforçar a importância do cuidado com a vegetação urbana, especialmente diante dos impactos provocados por tempestades e vendavais.
A recomposição da arborização deverá ocorrer sem substituir os programas de plantio, manejo e manutenção já existentes no município. Dessa maneira, o reaproveitamento dos resíduos e a recuperação das áreas afetadas são apresentados como iniciativas complementares.
“Não estamos falando apenas de aproveitar a madeira. Estamos falando de uma nova consciência ambiental. Precisamos cuidar das árvores que temos, recuperar aquelas que perdemos e encontrar soluções inteligentes para os resíduos gerados pelos temporais. Ribeirão Preto pode ser referência nesse trabalho”, ressalta Danilo Scochi.
Apesar das possibilidades apresentadas, o programa “Madeira que Renasce” ainda não está em funcionamento. O Projeto de Lei nº 354/2026 foi protocolado em 14 de outubro e seguirá os procedimentos de tramitação legislativa na Câmara Municipal de Ribeirão Preto.
O texto estabelece diretrizes gerais para o incentivo ao reaproveitamento sustentável da madeira, sem determinar a criação de novos órgãos, cargos ou estruturas administrativas. Caso seja aprovado e convertido em lei, a execução das iniciativas dependerá de avaliações técnicas, disponibilidade de recursos e decisões do Poder Executivo.
Isso significa que a proposta ainda precisará passar pelas etapas legislativas necessárias antes que possa produzir efeitos concretos. Também não há, neste momento, um cronograma definido para a implantação das ações, a seleção de participantes ou o início de eventuais atividades de capacitação e produção.
A iniciativa coloca em discussão uma alternativa para lidar com os resíduos gerados pela queda de árvores em Ribeirão Preto, buscando transformar materiais recolhidos após eventos climáticos em recursos que possam contribuir para a sustentabilidade, a economia criativa e a valorização dos espaços urbanos.
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