A arquitetura frequentemente vai além da estética e da funcionalidade. Em muitos casos, ela se torna um instrumento de preservação da memória, da identidade e da cultura de um povo. É justamente essa proposta que marca a participação do arquiteto boliviano Eduardo Baldelomar na edição 2026 da CASACOR São Paulo 2026.
Com o ambiente denominado Co Living Chiquitano, Baldelomar apresenta ao público brasileiro uma parte pouco conhecida da história latino americana, valorizando a riqueza cultural da Chiquitania, região localizada no leste da Bolívia e marcada pela convivência entre povos indígenas e missões jesuíticas.
UMA VIAGEM ÀS RAÍZES DA BOLÍVIA
Natural de Santa Cruz de la Sierra, Eduardo Baldelomar afirma que o projeto nasceu a partir de uma profunda pesquisa sobre suas próprias origens.
Ao longo dos últimos meses, o arquiteto realizou diversas viagens pela Chiquitania, visitando cidades históricas, igrejas centenárias, comunidades indígenas, artistas e artesãos locais. O objetivo era compreender de forma mais profunda os elementos que formaram a identidade cultural da região.
Segundo o profissional, a experiência revelou não apenas a riqueza histórica da Chiquitania, mas também o quanto esse patrimônio permanece desconhecido para grande parte da população fora da Bolívia.
O QUE É A CHIQUITANIA?
A Chiquitania é uma extensa região situada no leste boliviano, próxima à fronteira com o Brasil.
A área ficou conhecida pela presença das Missões Jesuíticas instaladas entre os séculos XVII e XVIII, período em que missionários europeus passaram a conviver com comunidades indígenas locais.
Dessa interação nasceu uma identidade cultural única, que combinou elementos da tradição indígena com influências religiosas e artísticas trazidas pelos jesuítas. O resultado ficou conhecido como barroco mestiço da selva, estilo que pode ser observado até hoje em igrejas, esculturas, pinturas e manifestações culturais da região.
PATRIMÔNIO MUNDIAL RECONHECIDO PELA UNESCO
A importância histórica da Chiquitania ultrapassa as fronteiras bolivianas.
As Missões Jesuíticas da Chiquitania receberam da UNESCO o título de Patrimônio Mundial em 1990, reconhecimento concedido a locais considerados de relevância excepcional para a humanidade.
O conjunto preserva igrejas históricas, obras de arte sacra, esculturas em madeira, documentos, partituras e tradições culturais que permanecem vivas há mais de três séculos.
UM AMBIENTE QUE FUNCIONA COMO MUSEU VIVO
O Co Living Chiquitano possui 32 metros quadrados, mas reúne uma impressionante coleção de elementos culturais.
São mais de 200 peças entre:
• Fotografias históricas
• Esculturas
• Máscaras tradicionais
• Cerâmicas
• Objetos artesanais
• Instrumentos musicais
• Obras de arte contemporâneas
• Mapas e registros históricos
Grande parte desse acervo foi produzida especialmente para a mostra por artistas e artesãos bolivianos, reforçando a valorização da produção cultural local.
O resultado é uma espécie de galeria viva, onde cada objeto possui um significado histórico, artístico ou simbólico.
A FORÇA DA MADEIRA E DA ARQUITETURA MISSIONÁRIA
Ao entrar no ambiente, o visitante encontra uma forte presença da madeira, material que possui papel central tanto na arquitetura quanto na arte produzida na Chiquitania.
Colunas, arcos, painéis, forros curvos e detalhes geométricos reinterpretam elementos encontrados nas históricas igrejas da região.
A proposta é transportar o público para uma atmosfera que remete aos templos missionários sem abrir mão de uma linguagem contemporânea de morar.
A MÚSICA COMO PATRIMÔNIO CULTURAL
Um dos aspectos mais curiosos apresentados no projeto está relacionado à música.
Segundo a curadoria do ambiente, a Bolívia preserva atualmente mais de 3 mil partituras originais do chamado barroco mestiço, consideradas um dos mais importantes acervos musicais produzidos durante o período das missões jesuíticas.
Essas obras foram encontradas durante processos de restauração das igrejas históricas e hoje representam um importante patrimônio cultural do país.
A trilha sonora do espaço foi desenvolvida a partir dessas composições históricas, proporcionando uma experiência ainda mais imersiva aos visitantes.
ARQUITETURA, MEMÓRIA E SUSTENTABILIDADE
Além da valorização cultural, o projeto também incorpora conceitos ligados à sustentabilidade.
O ambiente utiliza materiais naturais e destaca o trabalho de comunidades artesãs, incentivando cadeias produtivas tradicionais e contribuindo para a preservação de conhecimentos transmitidos entre gerações.
A proposta reforça uma tendência cada vez mais presente na arquitetura contemporânea: unir design, responsabilidade social e preservação cultural.
A TERCEIRA PARTICIPAÇÃO DE EDUARDO BALDELOMAR
Esta é a terceira participação de Eduardo Baldelomar na CASACOR São Paulo.
Veterano da CASACOR Bolívia, onde já participou de 12 edições, o arquiteto busca consolidar sua atuação no Brasil enquanto promove um intercâmbio cultural entre os países latino americanos.
Segundo ele, um dos objetivos do projeto é ampliar a percepção sobre a diversidade da Bolívia, frequentemente associada apenas às regiões montanhosas e ao altiplano.
SERVIÇO
CASACOR São Paulo 2026
Local: Parque da Água Branca
Período: 2 de junho a 9 de agosto de 2026
Funcionamento: de terça a domingo e feriados, das 11h às 21h
Com o Co Living Chiquitano, Eduardo Baldelomar transforma sua participação na mostra em um convite para que os visitantes conheçam uma das heranças culturais mais ricas e preservadas da América Latina. Mais do que apresentar um ambiente de arquitetura, o profissional propõe uma experiência de conexão com a história, a arte e a identidade de um povo que continua mantendo vivas suas tradições através das gerações.