
Esquecer onde deixou as chaves, não lembrar o nome de uma pessoa ou perder um compromisso pode parecer algo sem importância. Mas quando essas situações começam a acontecer com frequência, aumentam progressivamente ou passam a prejudicar atividades do cotidiano, é preciso ficar atento. Embora o envelhecimento possa provocar mudanças naturais na velocidade de processamento das informações, nem toda alteração da memória deve ser considerada normal.
A geriatra Natália Assunção, da Hapvida, explica que os esquecimentos podem ocorrer em diferentes fases da vida e estar associados a fatores como cansaço, distração, estresse e noites mal dormidas. Entretanto, existem sinais que merecem investigação médica, especialmente quando familiares percebem mudanças no comportamento ou na capacidade de realizar tarefas antes consideradas simples.
Segundo a especialista, a principal diferença entre uma falha ocasional de memória e uma possível alteração cognitiva está na frequência, na progressão dos sintomas e no impacto sobre a autonomia da pessoa.
Repetir as mesmas perguntas várias vezes, esquecer conversas recentes, perder-se em lugares conhecidos e apresentar dificuldades para administrar dinheiro ou medicamentos são exemplos de situações que exigem atenção. Problemas para utilizar aparelhos familiares, organizar atividades e tomar decisões também podem indicar alterações que vão além de um simples esquecimento.
“Um exemplo é a pessoa repetir as mesmas perguntas várias vezes, esquecer conversas ou acontecimentos recentes importantes. Perder-se em lugares conhecidos ou começar a ter dificuldade para realizar tarefas que fazia antes”, explica Natália.
A médica ressalta que também é necessário observar mudanças na linguagem, orientação, atenção, raciocínio e capacidade de planejamento. Esses sinais não confirmam, isoladamente, uma doença específica, mas indicam a necessidade de avaliação profissional.
Uma das maiores preocupações de quem percebe alterações na memória é a possibilidade de desenvolver a doença de Alzheimer. No entanto, a geriatra esclarece que existem diferentes condições capazes de provocar sintomas semelhantes, incluindo causas que podem ser tratadas.
Entre as possibilidades estão os transtornos neurocognitivos, como diferentes tipos de demência, e o comprometimento cognitivo leve, condição em que a memória ou outras capacidades cognitivas apresentam alterações maiores do que as esperadas para a idade, mas sem comprometer significativamente a independência.
Pessoas com comprometimento cognitivo leve precisam de acompanhamento, pois a evolução não é igual para todos. Algumas podem desenvolver demência, enquanto outras permanecem estáveis ou apresentam melhora, dependendo das causas envolvidas.
Na doença de Alzheimer, especialmente nas apresentações iniciais mais típicas, uma das principais dificuldades está na capacidade de aprender e armazenar novas informações. A pessoa pode receber uma notícia, participar de uma conversa ou vivenciar determinado acontecimento e, pouco tempo depois, não conseguir se lembrar.
A investigação de problemas de memória não deve se limitar às doenças neurodegenerativas. Segundo Natália Assunção, diversas condições clínicas e emocionais podem comprometer a atenção e a capacidade de recordar informações.
Ansiedade, depressão, estresse prolongado, privação de sono e isolamento social estão entre os fatores que podem provocar dificuldades cognitivas. Alterações da tireoide, deficiência de vitamina B12, efeitos adversos de medicamentos e interações entre diferentes remédios também precisam ser considerados.
A especialista destaca que distúrbios do sono, como insônia crônica e apneia, podem prejudicar a consolidação das memórias. Já algumas infecções podem desencadear confusão mental aguda, especialmente em pessoas idosas, situação que exige avaliação médica.
O reconhecimento dessas causas é importante porque parte das alterações pode melhorar com o tratamento adequado. Isso não significa, porém, que toda perda de memória seja reversível ou que a suplementação de vitaminas seja indicada sem a confirmação de uma deficiência.
Quando uma pessoa procura atendimento por perceber piora da memória, a investigação começa com uma análise detalhada dos sintomas e do histórico de saúde. O médico busca identificar quando as alterações surgiram, como evoluíram e quais atividades passaram a ser afetadas.
Também são avaliados o nível de escolaridade, os medicamentos utilizados, a qualidade do sono, o estado emocional, os hábitos de vida e a presença de outras doenças. Sempre que possível, a participação de familiares ou pessoas próximas ajuda a esclarecer mudanças que o próprio paciente pode não perceber.
Dependendo do caso, o profissional pode aplicar testes cognitivos, avaliar a capacidade funcional e solicitar exames laboratoriais ou de imagem, como tomografia computadorizada e ressonância magnética. Exames mais especializados podem ser necessários em situações específicas.
O objetivo é identificar a causa das alterações e estabelecer a conduta mais adequada, evitando tanto diagnósticos precipitados quanto a demora na identificação de problemas importantes.
Embora não exista uma medida isolada capaz de impedir todas as formas de demência, hábitos saudáveis podem contribuir para reduzir o risco de declínio cognitivo ao longo da vida.
A prática regular de atividade física, a alimentação equilibrada, o controle da pressão arterial, do diabetes e do colesterol, além de sono adequado e acompanhamento médico, fazem parte das recomendações. Evitar o tabagismo e o consumo excessivo de álcool também é importante.
Manter relações sociais, aprender novas habilidades, ler, estudar, tocar instrumentos e desenvolver atividades intelectualmente estimulantes são outras formas de favorecer a saúde cerebral.
“Cuidar do cérebro não começa quando a memória falha. Prevenir doenças cardiovasculares, manter o corpo ativo, cuidar do sono, cultivar relações sociais e tratar adequadamente problemas de saúde são também formas de cuidar da saúde cerebral”, afirma Natália Assunção.
A orientação é procurar avaliação médica quando os esquecimentos se tornam persistentes, progressivos ou começam a comprometer a rotina. Identificar precocemente as causas permite iniciar os cuidados necessários e preservar, sempre que possível, a qualidade de vida e a autonomia.
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