
Uma criança pode comer várias vezes ao dia, apresentar peso adequado e, mesmo assim, não receber todos os nutrientes necessários para crescer e se desenvolver de maneira saudável. O alerta é da pediatra Maria Cecilia Lunardelli, pós-graduada em suplementação infantil, que chama a atenção para um problema nem sempre percebido pelas famílias: a diferença entre estar alimentado e estar bem nutrido.
Durante a infância, as necessidades nutricionais mudam conforme o crescimento, o desenvolvimento e as condições individuais de saúde. Por isso, a avaliação da alimentação infantil não deve considerar apenas a quantidade de comida consumida, mas também sua variedade, qualidade nutricional e capacidade de absorção pelo organismo.
“Muitas vezes a criança ingere calorias suficientes, ou até em excesso, mas mantém uma dieta com pouca variedade e baixa densidade de vitaminas, minerais, fibras e outros nutrientes importantes. Ou seja, estar bem alimentado em quantidade não significa necessariamente estar bem nutrido”, explica a especialista.
Uma alimentação com calorias suficientes pode apresentar deficiências nutricionais quando há pouca diversidade de alimentos. Isso pode acontecer, por exemplo, em dietas com consumo frequente de produtos ultraprocessados e baixa presença de frutas, verduras, legumes e outras fontes importantes de nutrientes.
Na infância, vitaminas e minerais participam de processos fundamentais para o desenvolvimento físico e cognitivo, a formação dos ossos, o funcionamento do sistema imunológico e a produção de células sanguíneas.
O ferro, por exemplo, é essencial para a formação da hemoglobina e para o desenvolvimento infantil. Já a vitamina D participa da regulação do cálcio e da saúde óssea, enquanto a vitamina C contribui para diferentes funções do organismo, incluindo a absorção do ferro presente em alimentos de origem vegetal.
Entretanto, a necessidade de suplementar esses nutrientes não pode ser determinada apenas pela percepção dos responsáveis de que a criança come pouco ou rejeita determinados alimentos. É necessário considerar a alimentação habitual, o crescimento e os fatores individuais de risco.
A seletividade alimentar, caracterizada pela aceitação limitada de alimentos, é uma das situações que podem dificultar a oferta de nutrientes importantes. Algumas crianças apresentam resistência intensa a determinados sabores, texturas, cheiros ou grupos alimentares, o que pode comprometer a variedade da dieta.
Dietas restritivas, alergias alimentares, doenças intestinais e condições que interferem na absorção de nutrientes também podem aumentar o risco de deficiências nutricionais.
Além disso, dificuldades de ganho de peso, alterações no ritmo de crescimento e deficiências identificadas durante o acompanhamento pediátrico podem justificar uma investigação mais detalhada.
A médica destaca que cada criança deve ser avaliada individualmente, já que duas crianças da mesma idade podem apresentar necessidades nutricionais diferentes em razão de seus hábitos alimentares, condições clínicas e características de desenvolvimento.
A suplementação pode ser indicada em situações específicas, tanto para prevenir determinadas deficiências quanto para corrigir problemas nutricionais já identificados.
No entanto, a escolha dos produtos, das doses e do tempo de utilização deve ser feita com orientação profissional. O uso indiscriminado de vitaminas e minerais não garante benefícios adicionais e, em alguns casos, pode provocar efeitos adversos.
“A suplementação na infância pode ser indicada tanto de forma preventiva quanto para corrigir uma deficiência já identificada. Ela não deve substituir uma alimentação equilibrada e também não significa que ‘quanto mais vitaminas, melhor’. Na pediatria, a ideia é oferecer o nutriente certo, na dose correta e pelo período necessário, sempre considerando cada criança de forma individual”, destaca Maria Cecilia.
O excesso de determinados nutrientes também merece atenção. Vitaminas lipossolúveis, como a vitamina D, podem se acumular no organismo quando utilizadas em quantidades excessivas. O ferro, por sua vez, pode causar efeitos gastrointestinais e intoxicação em caso de ingestão inadequada.
Por isso, a automedicação e a oferta de suplementos sem avaliação das necessidades reais da criança devem ser evitadas.

Com o crescimento do interesse das famílias pela nutrição infantil, empresas do setor têm investido em produtos com formulações específicas para crianças.
Entre elas está a Yosen, que anunciou uma linha composta por Vitamina C Kids, Ferro Kids e Vitamina D3 Kids. Segundo a fabricante, os produtos seguem o conceito de formulações com poucos ingredientes e utilizam a tecnologia Ydrosolv, baseada em encapsulamento lipídico.
A empresa afirma que a tecnologia foi desenvolvida para proteger os nutrientes durante o processo digestivo e favorecer sua absorção. Essas alegações, entretanto, não devem ser interpretadas como comprovação de superioridade clínica dos produtos em crianças sem estudos específicos que demonstrem esse benefício.
O sócio-diretor da Yosen, Wolney Alonso, explica que a expansão para o público infantil exigiu adaptações no desenvolvimento e na apresentação dos produtos.
“Quando decidimos avançar para o público infantil, entendemos que essa categoria tem particularidades que precisavam orientar a criação da linha. Isso envolveu pensar não apenas na apresentação dos produtos, mas também na comunicação e em aspectos presentes na rotina das famílias”, afirma.
O farmacêutico e CEO da empresa, Gustavo Cadurim, também destaca a importância de considerar fatores como a forma de apresentação, a dose e a facilidade de administração.
“Não basta considerar apenas o nutriente que queremos oferecer. É preciso avaliar a forma utilizada, a dose adequada, a interação entre os componentes e também a facilidade de administração no dia a dia”, explica.
Apesar das inovações anunciadas pelo setor, especialistas reforçam que a escolha de qualquer suplemento deve partir de uma necessidade nutricional identificada, e não apenas da disponibilidade de produtos no mercado.
A avaliação nutricional infantil deve fazer parte do acompanhamento regular de saúde. Durante as consultas, o pediatra observa indicadores de crescimento, desenvolvimento, alimentação e possíveis sinais de deficiência nutricional.
Quando necessário, podem ser solicitados exames ou indicada uma avaliação nutricional complementar. Em casos de seletividade alimentar importante, também pode ser útil o acompanhamento por profissionais especializados.
A orientação central é que os suplementos não substituem uma alimentação variada e equilibrada. Eles devem ser utilizados como ferramentas complementares em situações nas quais exista indicação.
Para as famílias, o principal cuidado é observar a qualidade da alimentação, acompanhar o crescimento da criança e buscar orientação antes de iniciar qualquer produto vitamínico ou mineral.
Afinal, uma criança que come bastante não está necessariamente recebendo tudo de que precisa, mas isso também não significa que ela necessite automaticamente de suplementação.
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