
As Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de Ribeirão Preto registraram 733.543 acolhimentos entre 1º de janeiro e 2 de outubro de 2026, um crescimento de 15,9% em relação aos 633.074 contabilizados no mesmo período de 2025. Os números representam 100.469 registros adicionais em menos de dez meses e evidenciam a dimensão da procura pelos serviços municipais de urgência e emergência.
Segundo os dados divulgados pela rede municipal, 257.396 pacientes diferentes foram atendidos no período. Isso significa que uma mesma pessoa pode ter procurado uma UPA mais de uma vez, razão pela qual o número total de acolhimentos não deve ser confundido com a quantidade de moradores atendidos. A expansão ocorre em meio à reorganização da saúde pública iniciada em 2025, com inclusão de especialidades médicas, ampliação da odontologia de urgência e mudanças nos fluxos de encaminhamento para hospitais.
O aumento da atividade, entretanto, levanta uma questão importante: a rede está conseguindo atender mais pessoas com maior eficiência ou também enfrenta uma pressão crescente da demanda? Para responder, é necessário analisar não apenas o volume de acolhimentos, mas também o tempo de espera, a capacidade das equipes e a proporção de pacientes que precisam ser transferidos para outras unidades.
Uma das mudanças mais expressivas ocorreu na odontologia de urgência. Até junho de 2026, o serviço estava concentrado na UPA Leste. Com a ampliação para as quatro unidades contempladas pela reorganização, o município passou a contar com uma equipe reforçada de 20 cirurgiões-dentistas e 16 auxiliares.
Entre 29 de junho e 1º de outubro de 2026, foram registrados 7.964 atendimentos odontológicos, envolvendo 6.611 pacientes. No período equivalente de 2025, haviam sido contabilizados 4.459 atendimentos e 3.996 pacientes. Isso representa um aumento de aproximadamente 79% no volume de procedimentos e de 65% no número de pessoas atendidas, a partir dos totais divulgados. A expansão permite que mais moradores procurem assistência para situações odontológicas urgentes, embora os números não indiquem, isoladamente, quanto tempo cada paciente aguardou pelo serviço.
A traumatologia é outro destaque da reorganização. Desde a implantação da especialidade nas UPAs, em março de 2025, foram realizados 25.546 atendimentos a 21.591 pacientes, principalmente por lesões nas extremidades e quedas. A ginecologia também ampliou a capacidade de atendimento: entre maio de 2025 e 2 de outubro de 2026, foram registrados 13.474 atendimentos a 8.523 pacientes.
Os primeiros resultados da presença de especialistas já haviam sido apresentados pela Prefeitura em outubro de 2025. Na ocasião, a administração municipal informou redução de 58% nas transferências hospitalares relacionadas à traumatologia, de 49% nos encaminhamentos cirúrgicos e de 56% nas transferências de gestantes atendidas pela ginecologia, considerando os períodos específicos analisados.
Esses percentuais são relevantes porque indicam que determinados casos passaram a ser resolvidos nas próprias UPAs, evitando deslocamentos hospitalares. Entretanto, não significam que todas as transferências da rede tenham diminuído na mesma proporção em 2026.
O secretário municipal da Saúde, Mauricio Godinho, relaciona os resultados ao novo modelo de atendimento, que procura oferecer mais recursos diagnósticos e especialidades na rede de urgência.
Segundo o secretário, a instalação do primeiro tomógrafo municipal no Hospital Santa Lydia integra essa estratégia. O equipamento permite realizar exames que antes dependiam de encaminhamento a outros serviços, com potencial para diminuir deslocamentos e esperas.
A presença do aparelho representa um reforço estrutural, mas ainda é necessário conhecer indicadores específicos, como a quantidade de exames realizados, o prazo médio para obtenção dos resultados e a redução efetiva no tempo de permanência dos pacientes nas UPAs.
O crescimento da procura não ocorre apenas entre moradores de Ribeirão Preto. Dados apresentados pela Secretaria Municipal da Saúde e divulgados pela CBN Ribeirão mostram que os atendimentos a pacientes de outras cidades aumentaram aproximadamente 52% no primeiro quadrimestre de 2026, passando de 1.552 em 2025 para 2.359 neste ano.
Entre os municípios de origem citados estão Jardinópolis, Serrana e Sertãozinho. A procura regional amplia a responsabilidade de Ribeirão Preto como referência em saúde e pode pressionar equipes, equipamentos e vagas hospitalares.
A situação também traz um desafio financeiro: o município atende pacientes de diferentes localidades, mas precisa planejar sua estrutura considerando recursos, capacidade instalada e a demanda efetiva. Os números regionais ajudam a contextualizar a sobrecarga, embora não permitam atribuir a esse fator, sozinho, o crescimento geral de 15,9% nos acolhimentos.
Outra aposta da administração municipal é a telessaúde, que começou a ser ampliada em outubro nas unidades de atenção primária. O modelo permite que pacientes realizem consultas médicas por vídeo, com apoio presencial de profissionais de enfermagem para acolhimento e avaliação inicial.
Segundo a Secretaria da Saúde, o serviço tem capacidade estimada para acrescentar até 250 consultas por dia, principalmente para demandas de rotina, como renovação de receitas e acompanhamento de exames. A proposta é melhorar o acesso à atenção básica e evitar que problemas menos complexos acabem sobrecarregando os serviços de urgência.
Entretanto, ainda não foram apresentados dados suficientes para afirmar que a telemedicina já reduziu o movimento nas UPAs. O impacto dependerá da adesão dos pacientes, da disponibilidade das consultas e da capacidade da atenção primária de acompanhar os casos que não exigem atendimento emergencial.
Apesar do crescimento no número de acolhimentos e dos resultados divulgados sobre a redução de transferências, ainda faltam indicadores atualizados para avaliar integralmente a experiência dos pacientes. Entre eles estão o tempo médio de espera por classificação de risco, a duração do atendimento, o número de pacientes que aguardam internação e a evolução das reclamações sobre demora.
Essas informações são fundamentais porque uma unidade pode realizar mais atendimentos e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades em determinados horários ou especialidades. Também é necessário distinguir o aumento da capacidade assistencial do crescimento da procura, já que os dois fenômenos podem ocorrer simultaneamente.
A divulgação periódica desses dados permitiria acompanhar com maior precisão os resultados da reorganização da saúde municipal e identificar os pontos que ainda precisam de reforço.
As UPAs são destinadas principalmente a situações de urgência e emergência, como falta de ar importante, dor intensa, suspeita de fraturas, sangramentos relevantes e agravamento súbito de condições de saúde. O atendimento segue critérios de classificação de risco, e os casos mais graves têm prioridade, independentemente da ordem de chegada.
Já consultas de rotina, acompanhamento de doenças crônicas, renovação de receitas e avaliação de sintomas leves, sem sinais de gravidade, devem ser direcionados preferencialmente às unidades de atenção primária. Em emergências graves, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser acionado pelo telefone 192.
Os resultados de 2026 mostram que a rede de urgência de Ribeirão Preto passou a registrar um volume significativamente maior de acolhimentos e incorporou serviços especializados que anteriormente tinham menor disponibilidade nas UPAs. A redução de determinadas transferências hospitalares, já observada em 2025, indica avanços em partes da reorganização.
O desafio agora é demonstrar como essas mudanças se traduzem na rotina de quem precisa de atendimento. Mais do que contabilizar pacientes, a avaliação da saúde pública exige respostas sobre rapidez, qualidade, segurança e continuidade do cuidado.
Com uma demanda crescente, inclusive de moradores de outras cidades, o desempenho da rede dependerá tanto da estrutura disponível quanto da integração entre atenção básica, UPAs e hospitais.
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