
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto (SP), aponta que a combinação de exame de sangue, questionário clínico e inteligência artificial pode transformar o diagnóstico da hanseníase no Brasil, permitindo a identificação da doença em estágios iniciais.
A pesquisa utilizou amostras de sangue coletadas durante um inquérito sorológico realizado na pandemia de covid-19 e analisou a possibilidade de detectar precocemente a infecção causada pelo Mycobacterium leprae. O estudo foi desenvolvido por especialistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e publicado na revista científica BMC Infectious Diseases.
Segundo os pesquisadores, o método combina duas estratégias principais: um questionário clínico com 14 perguntas voltadas a sintomas neurológicos e um exame de sangue capaz de identificar anticorpos contra o antígeno Mce1A, uma proteína associada à bactéria da hanseníase. Diferentemente dos testes tradicionais, o novo exame avalia três tipos de anticorpos, aumentando a sensibilidade da detecção.
No estudo, 224 pessoas participaram da triagem inicial e 195 tiveram amostras analisadas. Após cruzamento dos dados e avaliação clínica presencial, 12 novos casos de hanseníase foram identificados, muitos deles em indivíduos sem sintomas evidentes.
De acordo com os resultados, a combinação do exame com a ferramenta de inteligência artificial atingiu 100% de sensibilidade na identificação de casos suspeitos, indicando potencial para uso como ferramenta de triagem na rede pública de saúde.
A hanseníase é considerada um problema de saúde pública no Brasil. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 200 mil novos casos são registrados anualmente no mundo, com o país ocupando a segunda posição global em número de notificações, atrás apenas da Índia.
A doença afeta principalmente a pele e os nervos periféricos, podendo causar perda de sensibilidade e fraqueza muscular. O diagnóstico precoce é considerado essencial para evitar sequelas, mas ainda enfrenta desafios, já que exames tradicionais costumam apresentar baixa sensibilidade nas fases iniciais.
Os pesquisadores destacam que o novo método pode ser incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) com baixo custo, já que utiliza técnicas laboratoriais semelhantes às já existentes. A próxima etapa será ampliar a validação da tecnologia para uso em larga escala.
No contexto do Triângulo Mineiro, região que mantém fluxo constante de pacientes e serviços de saúde interligados com centros como Ribeirão Preto, avanços no diagnóstico precoce podem contribuir diretamente para a redução de casos subnotificados e para o fortalecimento das estratégias de atenção básica.
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