
Junho é um dos meses mais aguardados por quem aprecia as tradicionais festas juninas. Em Ribeirão Preto, escolas, clubes, igrejas, condomínios e espaços de eventos promovem uma intensa programação que reúne milhares de pessoas em torno da música, das danças típicas e, principalmente, da gastronomia.
Mas enquanto muitos enxergam esse período apenas como celebração, especialistas alertam que as festas juninas podem representar um desafio significativo para quem convive com sobrepeso, obesidade ou dificuldades na relação com a alimentação.
Segundo a médica nutróloga Dra. Mariana Wogel, o impacto dessa época vai muito além do consumo de alimentos calóricos e envolve aspectos emocionais, comportamentais e sociais que costumam passar despercebidos.
Canjica, pamonha, curau, arroz doce, bolo de milho, paçoca e pé de moleque fazem parte da tradição junina e carregam forte valor afetivo para muitas famílias.
Em cidades como Ribeirão Preto, onde as festas juninas são eventos tradicionais em escolas, paróquias e entidades sociais, esses alimentos costumam estar associados a lembranças da infância, encontros familiares e momentos de confraternização.
Segundo a especialista, esse componente emocional faz com que a alimentação durante o período seja influenciada não apenas pela fome física, mas também por memórias e sentimentos.
Outro fator apontado pela médica é a pressão social presente em muitos eventos.
Em diversas situações, recusar um prato típico ou evitar determinadas preparações pode gerar desconforto ou até interpretações equivocadas entre familiares e amigos.
"A pessoa come para participar, para agradar, para não se sentir deslocada, e não necessariamente porque está com fome física", explica a Dra. Mariana Wogel.
Esse cenário pode ser ainda mais delicado para quem já enfrenta dificuldades relacionadas ao peso ou mantém uma relação conflituosa com a alimentação.
De acordo com a nutróloga, um dos principais problemas observados nessa época não é o exagero pontual, mas a culpa que surge depois dele.
Muitas pessoas acabam entrando em um ciclo de compensação.
Primeiro ocorre o excesso alimentar. Depois surge a culpa. Em seguida vêm estratégias radicais como jejuns prolongados, restrições severas ou dietas extremamente rígidas.
Segundo a especialista, esse comportamento costuma aumentar a fome, gerar mais ansiedade e favorecer novos episódios de compulsão alimentar.
As festas juninas costumam coincidir com um aumento da vida social.
Mais eventos, horários diferentes, noites mal dormidas e refeições fora da rotina podem dificultar a manutenção dos hábitos saudáveis.
Para pessoas que já apresentam tendência à fome emocional, impulsividade alimentar ou histórico de dietas restritivas, essas mudanças podem representar um desafio ainda maior.
Uma preocupação frequente após os eventos juninos é o aumento imediato do peso corporal.
No entanto, a médica alerta que nem toda alteração observada na balança representa ganho real de gordura.
Muitas vezes, o organismo apresenta retenção de líquidos, alterações intestinais e processos inflamatórios temporários decorrentes da mudança alimentar.
Por isso, especialistas recomendam cautela antes de interpretar oscilações de curto prazo como um retrocesso definitivo.
Outro comportamento comum durante as festas é o pensamento conhecido como "já que saí da dieta, perdi tudo".
Segundo a Dra. Mariana, essa lógica costuma ser uma das principais responsáveis pelo abandono de hábitos saudáveis.
Uma refeição diferente ou um evento pontual não determina o resultado de semanas ou meses de cuidado com a saúde.
Da mesma forma, um deslize não invalida todo o processo de mudança de hábitos.
A orientação da especialista é buscar equilíbrio em vez de perfeição.
Entre as recomendações estão:
• Evitar longos períodos de jejum antes dos eventos
• Não transformar exceções em hábitos diários
• Manter uma rotina alimentar equilibrada nos demais dias
• Respeitar os sinais de fome e saciedade
• Evitar comportamentos compensatórios extremos
• Planejar as refeições quando possível
Segundo a médica, o objetivo não deve ser viver o período em constante restrição, mas desenvolver consciência alimentar e fazer escolhas compatíveis com a realidade de cada pessoa.
Com dezenas de festas juninas programadas ao longo dos meses de junho e julho, Ribeirão Preto vive um dos períodos mais tradicionais do calendário cultural.
Especialistas ressaltam que aproveitar os eventos e cuidar da saúde não são objetivos incompatíveis.
O desafio está em abandonar a relação de culpa com a alimentação e substituir a autocobrança excessiva por estratégias mais realistas e sustentáveis.
Para a Dra. Mariana Wogel, o cuidado com o peso deve ser construído a longo prazo.
"A proposta não é viver com medo da comida típica nem transformar um momento cultural em sofrimento. Quando existe estratégia, acolhimento e individualização, é possível passar por esse período de forma mais leve", conclui.
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