
A necessidade de preparar as cidades brasileiras para períodos de estiagem, incêndios florestais e possíveis dificuldades no abastecimento de água foi o principal tema de um webinário promovido pela Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP) na quinta-feira, 30 de julho.
Realizado por meio da Comissão de Adaptação, Mitigação e Prevenção de Desastres (CAMP), em parceria com o Fórum de Cidades Amazônicas, o encontro reuniu prefeitos, gestores municipais, pesquisadores, integrantes de Defesas Civis e representantes do governo federal.
Com transmissão em português, inglês e espanhol, o webinário “El Niño e a seca: os impactos dos incêndios e estiagens nas cidades brasileiras” apresentou evidências científicas, experiências municipais e programas federais voltados à adaptação climática.
O debate acontece enquanto o El Niño avança sobre o Oceano Pacífico Equatorial. Em atualização publicada em 9 de julho, o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, informou que o fenômeno está ativo e deve se fortalecer até o final de 2026.
De acordo com a NOAA, existe uma probabilidade de 97% de que o El Niño continue no início de 2027. O órgão calcula ainda uma possibilidade de 81% de o evento atingir intensidade considerada muito forte entre outubro e dezembro de 2026.
A previsão, entretanto, não significa que todas as regiões serão afetadas da mesma maneira. Os efeitos do El Niño variam conforme a localização e podem envolver tanto redução quanto aumento das chuvas. A ocorrência de incêndios também depende de fatores como temperatura, umidade, condições da vegetação, ocupação territorial, uso do fogo e capacidade preventiva do poder público.
MUNICÍPIOS COBRAM RECURSOS
Durante o encontro, o prefeito de Maringá, Silvio Barros, presidente da CAMP, destacou a importância da troca de informações entre municípios e governo federal para ampliar a capacidade de prevenção e resposta.
O prefeito de Campinas, Dário Saadi, presidente da Comissão de Saúde da FNP, defendeu uma discussão federativa sobre o financiamento de obras e intervenções necessárias para enfrentar os eventos climáticos.
Segundo Saadi, parte dos investimentos exigidos pela nova realidade climática ultrapassa a capacidade financeira dos municípios. A avaliação reforça uma das principais demandas apresentadas pela FNP: a criação de instrumentos permanentes de apoio técnico e financeiro às administrações municipais.
A entidade também defende o fortalecimento da rede de monitoramento climático, a ampliação da atuação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e a integração das políticas de prevenção de queimadas e estiagens aos planos municipais de adaptação.
SECA AMEAÇA ÁGUA E TRANSPORTE
No primeiro painel, a pesquisadora do Cemaden Elisangela Broedel apresentou um panorama das condições de seca no Brasil e dos possíveis impactos sobre os recursos hídricos e a ocorrência de queimadas.
Eliezé Bulhões de Carvalho, diretor de Gestão Hidroviária da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação do Ministério de Portos e Aeroportos, abordou as ações preventivas para períodos de estiagem nos rios da Região Norte.
A redução do nível dos rios pode comprometer o transporte de pessoas, alimentos, medicamentos e mercadorias, especialmente em municípios amazônicos que dependem da navegação para manter serviços e atividades econômicas.
Representantes das Defesas Civis de Campinas, em São Paulo; Santarém, no Pará; e Rio Branco, no Acre, compartilharam experiências relacionadas ao enfrentamento da seca e dos incêndios. As apresentações destacaram a necessidade de integração entre diferentes setores das administrações municipais.
PROGRAMAS DE ADAPTAÇÃO
Representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima apresentaram políticas federais destinadas a apoiar os municípios, como o AdaptaCidades e o Programa Cidades Verdes Resilientes.
Participaram do encontro o secretário nacional de Meio Ambiente Urbano, Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental, Adalberto Maluf, e a diretora do Departamento de Políticas para Adaptação e Resiliência à Mudança do Clima, Inamara Melo.
O AdaptaCidades oferece apoio à elaboração de planos municipais de adaptação climática, com medidas voltadas ao diagnóstico de vulnerabilidades, planejamento territorial e preparação para eventos extremos.
Já o Programa Cidades Verdes Resilientes, criado em 2024, busca integrar políticas urbanas, ambientais e climáticas. A iniciativa envolve os ministérios do Meio Ambiente, das Cidades e da Ciência, Tecnologia e Inovação.
ARTICULAÇÃO INTERNACIONAL
O Fórum de Cidades Amazônicas participa da mobilização com a experiência de 45 governos locais de oito países integrantes da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica.
A rede funciona como espaço de diálogo sobre desafios compartilhados pelos municípios da Amazônia, incluindo segurança hídrica, navegação, urbanização sustentável, incêndios, ondas de calor e preservação ambiental.
A dimensão transfronteiriça é considerada necessária porque o El Niño e outros eventos climáticos não respeitam os limites territoriais e podem produzir impactos diferentes dentro da própria região amazônica.
PRÓXIMOS PASSOS
O encontro faz parte de uma série de seis webinários da FNP sobre os impactos do El Niño nas cidades brasileiras. A programação seguirá até outubro de 2026 e abordará temas como ondas de calor, enchentes, deslizamentos, segurança hídrica, sistemas alimentares, alertas, abrigos e participação social em desastres.
A mobilização da entidade também inclui articulação com o Congresso Nacional e o governo federal, capacitação de equipes municipais, elaboração de materiais técnicos e defesa da ampliação do financiamento preventivo.
O calendário e eventuais atualizações podem ser consultados nos canais oficiais da FNP e da CAMP.
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