
Algumas experiências terminam quando o evento acaba. Outras continuam provocando reflexões muito depois da última conversa e da última taça. Participar como sommelier do Sexualidade sem Tabus, em Ribeirão Preto, foi uma dessas experiências.
Em uma noite dedicada a conversas sobre sexualidade, relacionamentos, hormônios, saúde, autoestima e autocuidado, percebi o quanto esses assuntos podem se encontrar com o universo do vinho. No fundo, estamos falando de prazer, sentidos, descobertas e da liberdade de conhecer aquilo de que realmente gostamos.
Prazer também é autoconhecimento
Durante muito tempo, falar sobre prazer, especialmente entre mulheres, veio acompanhado de constrangimentos e julgamentos. E não me refiro apenas à sexualidade. Existe prazer em cuidar de si, sentir-se bonita, conversar, experimentar algo novo, estar entre pessoas interessantes e, claro, apreciar uma boa taça de vinho.
Foi muito especial encontrar mulheres dispostas a conversar abertamente sobre corpo, desejo, autoestima e saúde. Na minha opinião, precisamos cada vez mais de espaços assim. Informação também é liberdade.

O vinho também precisa perder seus tabus
Como sommelier, vejo algo parecido acontecer com o vinho. Muita gente acredita que precisa “entender de vinho” antes de começar a apreciá lo. Discordo completamente.
Conhecer uvas, regiões, aromas, temperaturas e harmonizações torna a experiência ainda mais interessante, mas esse conhecimento deve aproximar as pessoas, não intimidá las. Ninguém precisa passar em uma prova para apreciar uma taça. Gostar ou não gostar também faz parte da descoberta.
Cinco rótulos, diferentes sensações
Durante o evento, tivemos a oportunidade de conhecer Fausto Chardonnay, Fausto Alvarinho, Amitié Brut Rosé, Amitié Pinot Noir e Domaine InnVernia. Uma seleção que nos permitiu passear por diferentes estilos, aromas e sensações.
Mais do que apresentar características técnicas, gosto de perceber a reação de cada pessoa. Um vinho surpreende, outro desperta curiosidade e aquele que talvez não fosse a primeira escolha acaba se tornando o favorito. Para mim, essa é uma das partes mais bonitas de uma degustação.

Vinho também é memória
Quanto mais conheço esse universo, mais acredito que uma ficha técnica consegue explicar muita coisa sobre um vinho, mas nunca consegue explicar tudo.
Podemos falar sobre acidez, corpo, aromas, uvas, terroir e harmonização. Mas existe algo que nenhuma análise consegue medir: a memória criada ao redor de uma taça.
Talvez você esqueça a safra ou o nome da uva, mas dificilmente esquecerá uma garrafa aberta em um momento especial, uma conversa ou as pessoas que estavam ao seu lado.

Menos regras e mais descobertas
Saí do Sexualidade sem Tabus ainda mais convencida de algo que pretendo trazer também para esta coluna: vinho pode ser sofisticado sem ser complicado.
Quero falar sobre rótulos, uvas, regiões, harmonizações, histórias e curiosidades, mas de uma maneira próxima e sem pedantismo. O vinho deve ser um convite à descoberta, nunca uma barreira.
E talvez essa seja a conexão mais bonita que encontrei naquela noite. Seja quando falamos sobre sexualidade, autoestima, autocuidado ou vinho, existe uma pergunta que vale a pena fazer:
Do que eu realmente gosto?
Descobrir essa resposta exige curiosidade, informação e liberdade para experimentar. E, entre conversas, descobertas e boas taças, saí de lá com uma certeza: conhecer nossos próprios sentidos também é uma forma de conhecermos melhor a nós mesmos.
Líbia Kobori
Sommelier e colunista do Ribeirão Notícia
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