
O último debate presidencial antes do segundo turno das eleições de 2026 foi marcado por confrontos sobre economia, segurança pública, saúde e corrupção. Na noite desta sexta-feira (23), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) participaram do encontro promovido pela TV Globo, a dois dias da votação marcada para domingo (25).
Flávio concentrou parte de sua participação em críticas ao custo de vida, ao endividamento das famílias e à atuação do governo federal na segurança pública. O candidato também apresentou propostas para endurecer o combate ao crime organizado e melhorar o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS).
Lula, por sua vez, defendeu realizações de seus governos, destacou investimentos públicos e programas sociais e questionou posições anteriores do adversário, além de associá-lo à gestão de Jair Bolsonaro durante a pandemia.
Mediado pelo jornalista César Tralli, o encontro teve três blocos com temas definidos e um de tema livre. Apesar do espaço dedicado a propostas, os candidatos também protagonizaram momentos de tensão e trocaram acusações pessoais.
Um dos principais argumentos apresentados por Flávio Bolsonaro foi a situação financeira das famílias brasileiras. O senador criticou o endividamento, os juros elevados e a perda do poder de compra, responsabilizando a condução econômica do governo Lula por parte das dificuldades enfrentadas pela população.
Ao abordar o assunto, Flávio utilizou uma comparação entre o parcelamento de eletrodomésticos e a dificuldade atual de comprar alimentos, buscando relacionar os indicadores econômicos ao cotidiano dos consumidores.
Lula respondeu destacando medidas adotadas por seu governo para renegociação de dívidas e defendendo suas políticas econômicas e sociais. O presidente também questionou a orientação econômica defendida pelo adversário e suas referências internacionais.
O confronto colocou em evidência duas visões sobre como enfrentar o endividamento e ampliar o poder de compra, sem que o debate apresentasse uma avaliação conclusiva sobre a eficácia das propostas.
Na área de segurança, Flávio Bolsonaro defendeu medidas mais rigorosas contra organizações criminosas, incluindo a classificação de facções como PCC e Comando Vermelho como organizações narcoterroristas.
O senador também apresentou propostas para aumentar punições em determinados crimes, reduzir a maioridade penal para 14 anos em casos de estupro e adotar castração química para condenados por esse crime.
Lula respondeu defendendo o fortalecimento das instituições federais de segurança e afirmou que pretende criar um Ministério da Segurança Pública caso a proposta de emenda constitucional sobre o tema seja aprovada.
O debate também ganhou um momento de forte tensão quando o presidente questionou Flávio sobre sua atuação na defesa de um policial acusado de envolvimento na morte da menina Ana Clara, em Niterói, em 2021. O senador manifestou solidariedade à família e reiterou sua confiança na inocência do agente. O caso citado ainda não havia sido julgado, conforme a cobertura publicada após o debate.
Ao discutir o SUS, Flávio Bolsonaro criticou as filas de espera e a gestão dos recursos destinados à saúde pública. O senador prometeu investir no sistema e atualizar os valores pagos a médicos e hospitais pelos procedimentos realizados.
Lula defendeu a importância do SUS, especialmente durante a pandemia, e criticou a atuação de Jair Bolsonaro na crise sanitária. O presidente também apresentou ações de seu governo e questionou como o adversário financiaria as melhorias propostas.
Na área de infraestrutura, Flávio defendeu a ampliação de ferrovias, concessões e conectividade, além de propor gratuidade de pedágios para motociclistas. Lula destacou investimentos em obras e projetos de transporte, incluindo a Transnordestina e o túnel Santos-Guarujá.
O debate também teve confrontos envolvendo suspeitas de corrupção, relações com empresários e episódios relacionados às trajetórias dos dois candidatos.
Lula questionou Flávio sobre a arrecadação de recursos para um filme sobre Jair Bolsonaro e mencionou o empresário Daniel Vorcaro, ligado ao caso Banco Master. O senador respondeu que não houve utilização de dinheiro público na produção e também fez acusações envolvendo supostos repasses relacionados ao presidente.
As alegações foram contestadas pelos adversários e não podem ser tratadas como irregularidades comprovadas apenas com base nas declarações feitas durante o debate.
Em outro momento, Flávio pediu desculpas após fazer referência à perda de um dedo de Lula em um acidente de trabalho. O presidente reagiu à fala e também utilizou expressões ofensivas ao se dirigir ao senador.
Nas considerações finais, Lula pediu desculpas pelo tom elevado de parte do confronto.
As declarações dos candidatos também foram submetidas à verificação de agências especializadas.
A Agência Lupa identificou informações falsas ou sem contexto apresentadas por ambos. Entre elas, classificou como falsa uma afirmação de Lula de que a economia brasileira não havia crescido acima de 3% desde sua saída da Presidência, em 2010.
No caso de Flávio, a agência apontou falta de contexto na referência a mais de 11,5 mil obras paralisadas, pois o número mencionado não corresponde ao levantamento mais recente e não se refere exclusivamente ao governo atual.
A agência também verificou declarações corretas, incluindo a referência de Flávio ao patamar da taxa básica de juros e a afirmação de Lula sobre a abertura de mercados internacionais para produtos agropecuários brasileiros.
As verificações mostram a importância de distinguir propostas, críticas políticas e dados comprovados.
A avaliação do último confronto não foi consensual entre comentaristas políticos.
A revista Exame destacou que Flávio Bolsonaro adotou um tom mais moderado e apresentou mais propostas do que no debate anterior, enquanto Lula demonstrou maior desenvoltura ao defender ações de seus governos.
Na Jovem Pan, houve avaliação favorável ao desempenho de Flávio entre os comentaristas. Já uma análise publicada pelo UOL considerou que o encontro não produziu vantagem inequívoca para nenhum dos candidatos.
Assim, não há base para afirmar que um dos participantes venceu objetivamente o debate. O encontro encerrou a série de confrontos televisivos entre os presidenciáveis antes do segundo turno, marcado para domingo, 25 de outubro. Caberá aos eleitores avaliar os argumentos apresentados e decidir nas urnas quem ocupará a Presidência da República pelos próximos quatro anos.
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