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69% DOS BRASILEIROS CONSULTAM IA SOBRE SAÚDE: MÉDICOS PODEM SER SUBSTITUÍDOS?

Pesquisa revela que a inteligência artificial se tornou a primeira fonte de informação sobre saúde para milhões de brasileiros; em Ribeirão Preto, avanço da tecnologia levanta questões sobre autodiagnóstico, privacidade e segurança dos pacientes.

26/10/2026 às 06h29
Por: Jorn. Mateus Cordeiro
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69% DOS BRASILEIROS CONSULTAM IA SOBRE SAÚDE: MÉDICOS PODEM SER SUBSTITUÍDOS?

A inteligência artificial está mudando a maneira como os brasileiros cuidam da própria saúde. Antes mesmo de procurar um médico, muitas pessoas já recorrem ao ChatGPT e a outras ferramentas digitais para entender sintomas, interpretar resultados de exames ou buscar orientações sobre alimentação, sono e bem-estar. Uma pesquisa divulgada pela consultoria PwC revela que 69% dos brasileiros entrevistados utilizam a inteligência artificial como primeiro recurso quando surge uma dúvida relacionada à saúde. O comportamento coloca o Brasil entre os três países com maior adesão a essa prática entre os 27 mercados analisados.

Em Ribeirão Preto, importante centro regional de atendimento médico, ensino e pesquisa em saúde, a tendência nacional levanta uma questão que merece atenção: até que ponto a tecnologia pode ajudar os pacientes e quando passa a representar um risco? Embora não existam dados específicos que permitam afirmar quantos moradores da cidade utilizam inteligência artificial para esclarecer dúvidas médicas, os resultados nacionais mostram uma transformação que pode afetar a relação entre pacientes, profissionais de saúde e serviços médicos.

IA antes da consulta

O levantamento Voz do Consumidor 2026, realizado pela PwC, ouviu 21.808 adultos em 27 países e territórios, entre fevereiro e março deste ano. No ranking de utilização da inteligência artificial como primeira fonte para dúvidas de saúde, o Brasil aparece em terceiro lugar, atrás apenas do Vietnã, com 81%, e do Egito, com 77%.

Na prática, ferramentas capazes de responder perguntas em linguagem natural facilitam o acesso a explicações sobre condições médicas, exames laboratoriais e possíveis causas de sintomas. Uma pessoa que recebe um resultado de hemograma, por exemplo, pode recorrer à inteligência artificial para compreender o significado de determinados indicadores antes da consulta. O mesmo acontece com dúvidas sobre medicamentos, dores persistentes, cansaço, alimentação e qualidade do sono.

O problema surge quando uma resposta automatizada passa a ser interpretada como diagnóstico definitivo. Sistemas de inteligência artificial podem apresentar informações incorretas, desconsiderar aspectos importantes do histórico do paciente ou sugerir explicações inadequadas para sintomas que exigem avaliação presencial. Além disso, diferentes doenças podem apresentar manifestações semelhantes, tornando perigosa qualquer tentativa de diagnóstico baseada exclusivamente em conversas digitais.

Ribeirão Preto no centro da discussão

Reconhecida por sua estrutura de saúde e pela presença da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), a cidade reúne hospitais, clínicas, laboratórios, consultórios e instituições de pesquisa que atendem pacientes do município e de outras regiões.

Nesse cenário, o avanço da inteligência artificial abre possibilidades para melhorar o acesso à informação e preparar pacientes para consultas. Ferramentas digitais podem ajudar moradores a organizar sintomas, formular perguntas para profissionais, compreender orientações gerais e registrar informações importantes sobre a própria rotina.

Entretanto, o acesso facilitado também exige cautela. Uma resposta aparentemente convincente pode levar alguém a minimizar sintomas importantes, procurar tratamentos inadequados ou adiar uma avaliação médica necessária. A inteligência artificial não realiza exame físico, não conhece obrigatoriamente o histórico clínico completo do usuário e não possui a responsabilidade profissional de um médico que acompanha o paciente.

Por isso, o uso mais seguro dessas ferramentas é como complemento à informação, e não como substituição do atendimento médico.

Relógios e aplicativos

A mudança de comportamento vai além das perguntas feitas aos assistentes virtuais. A pesquisa também revela que 86% dos brasileiros entrevistados utilizam aplicativos ou dispositivos inteligentes para acompanhar pelo menos uma atividade relacionada à saúde e ao bem-estar, percentual superior à média global de 80%.

Relógios inteligentes, pulseiras digitais e aplicativos de celular permitem registrar passos, frequência cardíaca, exercícios, hábitos alimentares e padrões de sono. Essas informações podem ajudar as pessoas a perceber mudanças na rotina e desenvolver hábitos mais saudáveis.

No entanto, os números apresentados pelos dispositivos precisam ser interpretados com cuidado. Muitos equipamentos de uso doméstico não possuem a mesma finalidade nem a precisão de aparelhos médicos certificados, e eventuais alterações registradas não confirmam, por si só, a presença de uma doença.

Saúde mental e qualidade de vida

O interesse pela tecnologia também está relacionado à preocupação com o bem-estar emocional. Segundo a PwC, 50% dos brasileiros entrevistados desejam reduzir o estresse ou melhorar a saúde mental, enquanto 38% apontam a melhoria do sono como uma de suas prioridades.

Aplicativos de meditação, organização da rotina, exercícios e monitoramento do descanso fazem parte desse universo. Assistentes de inteligência artificial também podem oferecer explicações gerais sobre ansiedade, estresse e hábitos saudáveis, mas não substituem psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais qualificados.

Em situações de sofrimento psicológico intenso, pensamentos de autolesão ou dificuldades que comprometam a rotina, é fundamental procurar atendimento profissional.

Médicos ainda são referência

Apesar da popularização da inteligência artificial, a pesquisa apresenta um dado importante: 66% dos brasileiros consideram os profissionais de saúde uma das principais influências em suas decisões sobre cuidados pessoais, enquanto apenas 20% colocam ferramentas de IA entre as cinco maiores influências.

Isso indica que consultar uma ferramenta digital não significa necessariamente confiar nela para decidir sobre tratamentos ou procedimentos. Para muitos usuários, a tecnologia funciona como uma etapa inicial de pesquisa, enquanto a decisão continua dependendo da orientação profissional.

A diferença é essencial para compreender o fenômeno. A inteligência artificial pode responder rapidamente a uma pergunta, mas a interpretação correta depende de fatores como idade, doenças preexistentes, medicamentos em uso, resultados de exames e avaliação clínica.

Os riscos que merecem atenção

Outro ponto importante é a privacidade. Ao inserir resultados de exames, receitas, fotografias ou informações sobre doenças em plataformas de inteligência artificial, o usuário pode compartilhar dados pessoais sensíveis.

Antes de utilizar esses serviços, é recomendável conhecer suas políticas de privacidade e evitar o fornecimento desnecessário de informações que permitam identificar o paciente.

Também não é seguro iniciar, suspender ou alterar medicamentos com base exclusivamente em respostas de assistentes virtuais. Mesmo quando a informação parece correta, uma orientação genérica pode não considerar contraindicações, interações medicamentosas ou condições individuais.

Em situações de urgência, como dor intensa no peito, dificuldade para respirar, sinais de AVC ou perda de consciência, buscar respostas em um aplicativo pode atrasar o atendimento necessário. Nessas circunstâncias, a prioridade deve ser procurar imediatamente um serviço de emergência ou acionar o Samu pelo telefone 192.

O futuro das consultas

A tendência é que as ferramentas digitais se tornem cada vez mais presentes na rotina de pacientes e profissionais. A inteligência artificial pode auxiliar na organização de informações, no acompanhamento de hábitos e na compreensão de conteúdos relacionados à saúde, desde que utilizada com critérios de segurança.

Para Ribeirão Preto, o debate envolve também educação digital e acesso à informação confiável. Ensinar a população a diferenciar uma explicação automatizada de uma avaliação médica pode ser tão importante quanto ampliar o acesso às próprias tecnologias.

A pesquisa da PwC mostra que o primeiro contato dos brasileiros com uma dúvida de saúde está se tornando cada vez mais digital. O desafio, agora, é garantir que essa facilidade contribua para decisões mais conscientes, sem transformar respostas geradas por computadores em substitutas de diagnósticos, consultas e tratamentos profissionais.

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